segunda-feira, 9 de março de 2009

A grande mostra



Começou sopesando territórios e capacidades, e chega à maturidade o Festival de Animação de Lisboa – Monstra, numa 8ª edição com programa requintado, culto, mas muito animado e divulgador q.b., por forma a cativar o grande público. É um equilíbrio complexo, programar de forma popular materiais que permitam comemorar os 100 anos do Manifesto Futurista, os 93 anos do Manifesto Dadaísta, os 90 anos da sua expressão inicial no Cabaret Voltaire e os 90 anos da Escola Bauhaus. Era quase inevitável que o país convidado fosse a Suíça, dada a diversidade da animação aí produzida desde sempre e o seu cariz experimentalista: poderemos ver obras de Gisele e Ernest Ansorge, dos irmãos Guiaumme, de Schwizgebel.
Porquê tanta referência histórica? Porque estes movimentos do início do século XX trouxeram a experimentação para a ordem do dia. Muito do cinema vanguardista dos anos 20 é já reflexo da movimentação efervescente das artes daquela época. E a experimentação é a tónica que firma a Monstra. É uma programação cheia e rica que rematará a competição de longas-metragens profissionais (não perder o filme colectivo “Fear(s) of the Dark”, ou “Sita Sings the Blues”, de Nina Paley) e o certame de curtas destinado a estudantes. Haverá masterclasses e workshops por especialistas portugueses (Joana Bartolomeu e F. Galrito) e estrangeiros (a realizadora japonesa Maya Yonesho, o cineasta suíço Gergoe Schiwzegebel, o conhecido compositor norte-americano Nick Phelps, os irmãos Giaumme, Stephan Jurgens), dirigidos a todos os públicos, até para os mais pequenos, para quem a Monstra se desdobra numa apetitosa Monstrinha, com programa distribuído em vários locais que extravasam o Cinema São Jorge, centro das actividades, e vai aos Museus da Marioneta, do Oriente e de Etnologia, ao Teatro Meridional e à Escola Secundária D. Dinis, no fito de abarcar públicos emergentes.
O director Fernando Galrito realça objectivos do projecto: “Divulgação, formação, o espaço de encontro e de diálogo, sempre a experimentação, e a produção e edição de obras da imagem animada.” Por isso, os portugueses também se destacam, com cinco estreias. No dia 9, segunda, às 21h30, o festival abre homenageando Lisboa e os seus eléctricos, com “28”, de José Manuel Xavier (produção Ho!). No dia 14, sábado, às 21h30, é a vez de “Passeio de Domingo”, de José Miguel Ribeiro (produção Zeppelin), autor do galardoado “A Suspeita” (único Cartoon d’Or português). A não perder, a exposição de maquetas originais deste filme, apresentada no Museu da Marioneta, oportunidade rara para entender o “fabrico dos bonecos” e que é uma viagem encantatória de inesperada beleza e génio criativo. Há mais portugueses: “Mi Vida en Tus Manos”, de Nuno Beato (co-produção com a Espanha), e as produções da Animanostra “Diário de Uma Inspectora do Livro de Recordes”, de Tiago Albuquerque, e “Um Degrau Pode Ser um Mundo”, de Daniel Lima. Entre os trabalhos escolares realçamos o promissor “Smolik”, de Cristiano Mourato, jovem da ESAD de Caldas da Rainha (sexta, dia 13, às 18h e 23h).
De 9 a 15 de Março, mormente no Cinema São Jorge, a Monstra é local para ser visitado. Até porque o ambiente de tertúlia artística e vários concertos ao final da noite propiciarão um convívio que é pouco habitual.



Queria dar um especial agradecimento ao autor do texto, António Loja Neves, jornalista do Expresso, e a Jorge Araújo, Editor da Revista Actual, por me facultarem este texto que saiu na edição de 07 de Março de 2009.

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